Recuso o título de paciente

Dia desses eu tive uma contratura muscular. Estava sentindo uma dor chata nas costas, mas resolvi dar tempo ao tempo achando que ia passar. Na manhã seguinte, quando chegava no trabalho, tive uma pontada forte enquanto caminhava e congelei. Mal conseguia respirar!

Fui para o hospital (aqui vale um parênteses: era um hospital particular da minha cidade. Tenho cobertura de plano de saúde).

Já era por volta de 10h30 e, infelizmente, estava em jejum porque sai correndo de casa sem o café da manhã. Chegando lá, a típica cena: emergência lotada, funcionários no automático e “pacientes” com a cara de dor e sofrimento (porque de fato estão sofrendo! rs).

Me chamaram para triagem. Alguns minutos depois chegou a hora de entrar no consultório médico.

A médica que me atendeu estava em um conflito: não sabia se olhava as mensagens do celular ou se olhava para o receituário na frente dela. Olhar para mim não parecia ser uma opção. Ela perguntou o que eu tinha e, depois que eu respondi, ela falou um “uhum” e anotou alguma coisa no papel. Me passou um medicamento intravenoso e me encaminhou para a enfermaria.

Ela não me examinou e nem sequer tocou em mim. Quando eu perguntei se seria necessário fazer algum tipo de exame ela respondeu: “Aqui não fazemos exames, você tem que procurar um especialista”. Fingi que não escutei. Uma emergência não faz exames? Aceitaria se ela dissesse que o meu caso não exigia exames (se ao menos ela tivesse me avaliado com atenção).

Fiquei uma hora no soro tomando remédio para dor. Eu estava morrendo de fome, impaciente porque a dor não passava e começando a ficar muito incomodada porque percebi que o descaso da médica não era só comigo.

O caos da emergência

De um lado tinha uma mulher que estava há uma semana indo ao hospital todos os dias por causa de cólicas fortes. Até aquele momento ela não sabia a causa do problema. Do outro lado, uma mulher com pressão alta. A medicação dela já tinha terminado há mais de 30 minutos, o mal estar ainda não tinha passado e ela estava esperando pela orientação da médica.

Com a enfermaria cada vez mais cheia e a maioria dos pacientes já medicados aguardando o direcionamento ou liberação dos médicos, os enfermeiros já estavam ficando inquietos também.  Eles precisavam liberar espaço, mas para isso precisavam dos médicos.

Minha medicação já havia acabado há mais de 40 minutos e eu ainda não me sentia confortável, mas queria mesmo era ir embora. Meu prontuário estava com a médica e eu só estava aguardando a liberação.

A mulher da pressão alta ficou inconformada. A cada 10 ou 15 minutos alguém chegava perguntando para ela qual foi o último registro da pressão. Da terceira vez ela disse: “Eu não me lembro. Vocês que são enfermeiros não deveriam anotar isso?”.

Vendo esse caos, perdi a paciência. Peguei o soro e fui para frente da sala da médica. Dois consultórios, duas portas fechadas. Nenhum paciente lá dentro.

Uma enfermeira me disse que eu não poderia ficar ali e que a médica não me atenderia daquele jeito. Eu pedi desculpas, mas expliquei que eu só queria ir embora e que estava vendo que ninguém estava sendo atendido.

De repente, um médico aparece no cenário e entra nos consultórios. Ele parecia querer dar algum recado aos plantonistas. Quando ele percebeu a situação da emergência, LOTADA, ficou extremamente frustrado. Saiu de um dos consultórios dizendo: “Brincadeira, hein?! A emergência lotada e vocês aí de papo”. Foi então que percebi que a médica que me atendeu estava dentro do consultório na maior prosa com o colega.

Perguntei aos enfermeiros e confirmei minha suspeita de que o tal médico era o chefe da emergência.

Com cara de pastel, a médica me viu segurando o soro na frente da sala dela e me chamou. Eu disse que estava ótima (mentira) e que queria ir para casa (muita verdade).

Sei que meu caso não era nem de longe o mais grave e é por isso mesmo que me revolta o que aconteceu. E se fosse? Diante desse tratamento, será que eu ainda estaria aqui para escrever essa história?

Cliente ou ser humano mesmo

Por isso eu digo que me recuso a ser paciente, no sentido palavra que designa a relação “médico x pessoa atendida”. Veja bem, acho paciência uma virtude essencial! Não é disso que estou falando. É que normalmente colocamos os médicos como divindades e, no alto de suas posições, inquestionáveis.

Por que não podemos pensar em uma relação “prestador de serviço x cliente”? Afinal, nada está sendo feito por caridade. Mesmo no serviço público, temos o direito de exigir um tratamento digno e de qualidade porque pagamos impostos para esse fim (e muitos outros).

Acho que falta empatia em muitos profissionais da área da saúde. Qualquer momento de doença já é frágil por si só. Não precisamos de mais problemas em meio a um problema. Seria muito bom se esses profissionais pudessem rever suas vocações ou sua habilidade de se colocar no lugar do outro. Ou ainda, reduzindo ao mínimo esperado, que pudessem rever sua postura profissional no ambiente de trabalho.

Ainda há esperança! É a última que morre (e que não seja na fila de espera do hospital).

 

Um comentário em “Recuso o título de paciente

  1. Isso é fruto da “instituição de ensino”, que com certesa deva ser capitalista e despeja esses tipos de “profissionais” no mercado de trabalho sem cobrar um histórico de progresso, pra dar um aval da qualidade do ensino. E a população se torna cobaias desses monstros…

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